As ataxias hereditárias constituem um grupo alargado de doenças causadas pela disfunção do cerebelo e/ou das suas principais conexões. Clinicamente, manifestam-se como uma perturbação do equilíbrio e da coordenação que afeta a marcha e, frequentemente, também as mãos, a fala e os movimentos oculares.
A prevalência das ataxias espinocerebelosas (SCA, spinocerebellar ataxia) na população estima-se em 2,7/100 000 (Ruano et al., 2014). A ataxia de Friedreich é a ataxia hereditária mais comum em caucasianos, com uma incidência estimada de 1/29 000 indivíduos e uma frequência de portadores de 1 em 85. Entre 2–13% dos casos de ataxia de início tardio e esporádica são causados por expansões nucleotídicas detetáveis através de estudos específicos por PCR/TP-PCR (Abele et al., 2002). A antecipação, caracterizada por um início mais precoce da doença e/ou por um curso mais grave nas gerações subsequentes, é um fenómeno típico das mesmas. Para além da análise de expansões nucleotídicas, foram concebidos painéis NGS para a deteção de variantes pontuais e CNV em genes responsáveis por SCA (ataxias espinocerebelosas) (SPG7, SETX, SACS, AFG3L2 ou SYNE1, entre outros; Galatolo et al., 2017), estruturados de acordo com o modo de hereditariedade (autossómica dominante ou autossómica recessiva).
A sobreposição da ataxia com a perturbação do tónus muscular (seja espasticidade ou distonia, nem sempre fáceis de diferenciar no exame neurológico) é um achado bem estabelecido no caso da espasticidade e está cada vez mais descrito no caso da distonia, pelo que propomos uma abordagem conjunta através do painel de ataxias espásticas e síndromes de ataxia-distonia.
A apresentação da ataxia sob a forma de episódios recorrentes, com duração de minutos a horas, constitui indicação para a realização de um painel de ataxias episódicas. A forma mais comum e melhor caracterizada é causada por variantes patogénicas heterozigóticas no gene CACNA1A.
Foi igualmente desenvolvido um painel para o estudo de perturbações congénitas ou de início neonatal que cursam com ataxia associada a malformações do cerebelo e que podem também afetar o tronco cerebral. A deficiência intelectual e motora está presente em todos os casos; outros possíveis sintomas associados são a microcefalia progressiva e as convulsões. Trata-se de uma seleção dos genes mais relevantes relacionados com a síndrome de Joubert (caracterizada pela imagem do “sinal do dente molar”), a síndrome de hipoplasia pontocerebelosa e algumas perturbações congénitas da glicosilação que afetam o cerebelo de forma proeminente.
O painel geral de ataxia inclui, para além de todas as entidades previamente referidas (com exceção das expansões), outras ataxias de base metabólica, mitocondrial e relacionadas com defeitos na reparação do ADN.